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"Frágil — você tem tanta vontade de chorar, tanta vontade de ir embora. Para que o protejam, para que sintam falta. Tanta vontade de viajar para bem longe, romper todos os laços, sem deixar endereço. Um dia mandará um cartão-postal, de algum lugar improvável. Bali, Madagascar, Sumatra. Escreverá: penso em você. Deve ser bonito, mesmo melancólico, alguém que se foi pensar em você num lugar improvável como esse. Você se comove com o que não acontece, você sente frio e medo. Parado atrás da vidraça, olhando a chuva que, aos poucos, começa a passar." — Caio Fernando Abreu.
R E T O R C I D O
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Eu costumava reclamar do cigarro que não desaparecia de seus dedos. Hoje, o gosto do mesmo permanece 24 horas na minha boca. Eu costumava a reclamar do frio que o sopro do vento me causava. Hoje, eu guardo reclamações para mim, por saber que você não estará aqui para me esquentar. Eu tinha mania de fazer planos para nós no futuro. Hoje, eu nao perco mais meu tempo, porque sei que não existe mais o “nós”.


Sempre tive medo de não saber quem sou, sem você. Pensava que me tornaria um nada. Mas não. Eu sei o que sou. Sou uma praia de saudade abandonada, num dia ensolarado de solidão, com gaivotas de melancolia alimentando-se de nostalgia.


Lembra-te quando nos conhecemos? Lembra-te de quando trocamos o primeiro olhar, demos o primeiro abraço? Lembra-te de como fiquei corada após nosso primeiro beijo? Ainda se lembra quando passamos aquele fim de semana juntas? Quando eu inventava apelidos bobos pra você? E você fingia ficar emburrada só para ganhar um beijo? Lembra-te quando lhe disse que amava alguém? E que esse alguém era você? Lembra-te quando passamos a ser uma pessoa só? Lembra-te de todas as brigas e mágoas que sofremos e superamos juntas? Lembra-te quando lhe jurei amor eterno? Lembra-te quando você me disse coisas horríveis e eu perdi a cabeça e acabei lhe insultando? Lembra-te quando confessei meus piores defeitos? Lembra-te quando eu disse que mentia? Eu menti… pela primeira vez, quando eu disse que mentia! E desde aquele dia, não de mentir.. Não sinto sua falta, não penso em ti todos os dias, seu nome não é o primeiro que vem á minha mente ao acordar, não sorrio e não choro ao olhar nossas fotos, não me incomodo em não te ter.. Tudo mentira! Você, por me conhecer tão bem, não percebe que não sei mentir pra você? Como não consegue ver? Está tudo tão detalhado, esparramado, nas suas mãos.. Você apenas não quer acreditar! E eu, mais uma vez, tenho medo de confessar..


Ok, o jogo acabou, você ganhou. Confesso que falhei. Me desesperei ao pressentir a sua partida, outra vez. E fiz pouco caso. Aliás, eu nunca pensei realmente que isso fosse voltar a acontecer. Eu menti, eu errei. Errei principalmente no exato momento em que permiti a sua partida… Gritei para todos que não precisava de ti, mas a verdade, é que meus dias se tornaram um longo caminho de escuridão, com espinhos afiados e enormes braços me puxando para baixo. E a verdade, é que eu não sei se quero continuar o meu trajeto. Não sei se ainda existe algum motivo para voltar, me reerguer, lutar.. Penso que existe, mas não sei se ainda há tempo. Eu falhei quando não era permitido. Eu não tentei relutar. O fracasso habitou em minha mente e se acomodou em minha alma… E os dias não são os mesmos sem você. Eu só queria poder olhar em seus olhos mais uma vez.. não dizer nada… apenas alimentar-me um pouco do brilho que exala em teu olhar.. E assim, poder caminhar pra algum lugar, até esta abstinência de você, passar.


Sentada na varanda de casa, ela via o tempo passar e nada mudar. Seus pensamentos a levaram para alguns meses atrás, aquela cena estava se repetindo novamente. Entre seus dedos, o cigarro exalava o cheiro de tristeza e nos lábios, o gosto amargo da solidão. E ela, apenas se movia para tragar-lhe a alma naquela droga. Uma lágrima brotou-lhe e desfaleceu-se em seu rosto. Teu semblante era o mesmo. Tuas mãos trêmulas e a mania de cobrir os lábios com os dedos, enquanto viajava em seus pensamentos, continuavam presentes. Nada havia mudado, a não ser a dor. Antes, a dor de não ter por perto. Agora, a dor de não ter.


Sabe o que mais me dói? Lembrar de tudo aquilo que fomos e deixamos passar. Aqueles nossos momentos, em que eu não me preocupava em ficar horas só observando seu modo de falar com todas aquelas suas manias, sorrindo. Eu te abraçava e desejava ter te conhecido muito antes. Mas sabe o que me corrói agora, neste exato momento? Saber que de um “Eu não vivo sem você” em meio de muitos beijos, só restou-me a lembrança, de que eu amei e amo verdadeiramente, e o desejo, de querer apenas uma pessoa ao meu lado, enquanto você se distrai, com uma garota em cada noite.


O pior de se entregar pra pessoa errada, é lembrar de cada momento, como se fosse única..


Está vendo este meu sorriso? Não, você não está vendo. Ele parou de existir quando você se foi.


Queria ser capaz de olhar pra você e dizer o quão mal você me fez sentir.


As lembranças do passado estarão sempre presentes na sua memória, esperando o momento certo de causar novas dores em seu coração e confundir mais uma vez, a sua mente.